in No teu deserto, por Miguel Sousa Tavares

" - Escrever não é falar.
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque já não te resta nada para dizer.(...) E, escrevendo, poupei as coisas que gostaria de te ter dito e que gostaria que tivesses ouvido."

desculpa as ausências

hoje perguntaste-me porque é que já não escrevo como antes fazia, em rascunhos e folhas de papel perdidas, num talão de compras ou nas folhas do teu caderno de português. perguntaste-me porque é que já nem escrevo sequer. respondi-te que perdi as palavras de amor, perdi as histórias e as memórias. fiquei sozinha, vazia, como um quarto a quem tiraram toda a mobília. expliquei-te que tento, ainda tento, escrever como antes, mas não consigo. inicio as histórias com pouca acção da borracha, mas a meio tudo deixa de fazer sentido, tudo perde o significado. contaste-me que tinhas muitas saudades da minha escrita, de como gostavas de me ver a escrever em todo o lado: nos cafés, na praia, à espera do autocarro, no banco do jardim ou no passeio em frente à tua casa. disseste que já era rotina ouvires os meus textos nos caminhos que fazíamos e que já te tinhas acostumado a encontrar-me com um bloco e o meu estojo azul, das vezes que ia ter contigo. foi a minha vez de falar, confessei-te que o fazia para escrever sobre os bons momentos que passava a teu lado, sobre os planos que tínhamos feito e sobre os caminhos que escolhemos, que gostava de o fazer pois era uma maneira de matar saudades quando te encontravas distante. após aquele breve silêncio, "por favor, volta a escrever", disseste.

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